domingo, 20 de novembro de 2011

vermelhas são as olheiras da tarde.

sábado, 19 de novembro de 2011

Da camiseta

Receio em pedir de volta a camiseta. Medo. Daqueles medos que se tem de saber a verdade por que mais que seja ela ruim. Fingir que é boa também não adianta nada. Ela foi minha mas tão tua ao mesmo tempo. E não lembro, mas acho que foi de muitos outros antes de nós. Usávamos eu e tu e às vezes ao mesmo tempo. Mas acabou ficando sem mim. Ficava melhor em ti, confesso. Todo cinza é teu e isso nada vai mudar. Está registrado em ata. Se carregas contigo ou se guardas no fundo da gaveta junto com aquelas que estão furadas, com as mangas rasgadas, talvez comida por traças, manchada de água sanitária ou simplesmente apertada, se mandaram-te queimar ou doar para necessitados ou fizeram-na de pano de chão: não me importo. Só queria certificar que ela passa bem mesmo amassada.

do vazio que se preenche de si mesmo

tem mais você do que eu aqui.

das nuvens

gosto muito das nuvens que conheço

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

metade

Você não precisa de uma banda pra ser feliz.
Precisa ser inteira.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ele disse: casa comigo
ela disse: apartamento.

Aqui ontem há um ano.

Rezei para que o hoje fosse daqui a dois anos
Que eu estivesse grande, fosse moça e tudo resolvido
Ontem, sonhei pra que fosse eu ao seu lado
(ontem, há dois anos)
Que tudo que passamos fosse futuro e não passado
Não haveria quase nada a se arrepender
Nada de marcas, nada marcado


Chorei quando você foi embora
Sabendo que futuro também seria
‘Que se foste é por que não deveria ter vindo agora
Ou não, vai ver que era pra ter vindo mesmo assim
Eu que não deveria

E ter ido como se foi fez-me como hoje sou
A ti também fizeste, que sei
de ontem há dois anos a frente
Eu me fui. Se fosse no futuro, no passado também.
Pensaria em tudo de novo, com algumas mudanças
(cometer o mesmo erro não faz parte de ontem pra frente)

E se o destino viesse hoje, lhe digo: não sei se ia.
Não sei se o trocaria por praias, coqueiros, uma horta ou jardins
Nem se cantaria a música, sem palavras, aplaudindo aos céus
Não me sendo, tudo e todos para ti
Não veria tantos e tantas, fingindo aquilo não querer
Hoje eu sei: não fui.
Mas depois dessas rimas tão ruins: um dia posso vir a ser.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

adeus

dando adeus à nuvem negra
(que se despede com chuva)
aceno alegremente
agradeço os momentos sofridos
(mas sem sofrer na despedida)
nem com augúrios saudosos
nem cicatrizes feridas

adeus nuvem negra
vá molhar outros chãos
(cabeças)
aqui só tem espaço pra inverno
não mais tristeza.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

tempo

mais um mês e eu não consegui virar a página.
(do calendário)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

poeira é pó

poeira é pó
aos montes
não importa de onde venha
o coletivo de sujeira
é sempre mais de um
trago uma caixinha
cheia de piuns de presente
pra pó e poeira
é o equivalente com afeto
um pote de barro, poeira
guardando água
vira lama?

procura-se um gênio ao contrário que me caiba.

Solidão Televisão

Eram um casal daqueles cuja história se repete. Ela, aos 15, para sair de casa, sonhava em se casar, ter sua própria casa, filhos, horta e televisão. Ele, aos 18, para descansar a mão, queria arranjar uma mulher, que não fosse sua mãe, para fazer sua comida, lavar sua roupa, que fizesse um carinho, lazer e filhos. Ah, e queria ter um açude para criar peixes. Conheceram-se quando seus pais discutiam negócios. Um boi por um cavalo. Um porco por um galo. Uma fêmea pelo macho. Ele achou bom. Ela pensou: é o que temos pra hoje, e achou bom também. Não aguentava mais: está na hora, já é moça, princesa, a tua prima, a vizinha e a filha da Cleyde já, e tu, cadê?

– Tá, eu vou. O pai deu um pedaço de terra dos fundos para construírem o seu novo lar. Ele, habilidoso, trabalhador, musculoso, sem dente, mas charmoso, foi na mata, tirou umas piranheiras, umas palhas, umas paxiúbas e construiu o ninho de amor (este que ainda não existia, mas diziam que era questão de tempo: uma hora você aprende a gostar). Cláudia sentou-se.

Matou-se um porco, pescaram-se alguns peixes, fez-se brasa e muita festa na família para celebrar a mais nova união, em nome de Deus, a mais nova chuva de benção – em julho- naquela comunidade. Só se pensava nos netos, bisnetos que estavam por vir. Ela pensou que por mais que nem conhecesse seu companheiro, não deveria ser tão difícil ter uma vida a dois, de início, mas depois a três, a quatro, a cinco...quanto viesse e quanto coubesse na casa. - Quero muito menino, ó. Correndo, se trepando nessas árvores, ajudando a descascar macaxeira, cavando buraco. Menos trabalho pra gente, né? Riu. Ou não, eu completei mentalmente.

Cada um levou o que era seu, quase nada, pro barraco com cheiro de madeira morta. –Tu gosta de mujangué? – Tu prefere chuva ou sol? – Acha que o padre é biba?. E foram se conhecendo. Os anos se passaram, a Cláudia que esteve sentada por muito tempo, levantou-se e eles passaram a se gostar. O dinheiro da agricultura não era muito, mas sempre foi o suficiente para alimentá-los, os dois e um embutido na mãe. Quase três. Seus pais se mudaram pra cidade e o terreno ficou grande e vazio para duas pessoas e meia. Enquanto ele trabalhava no quintal, construindo cercas de mulateiro para o gado não fugir para o terreno do vizinho, ela reclamava do peso do meio em sua barriga. Mesmo antes de o pequeno pensar em vir ao mundo, ela sempre pedia: Môr, quero uma televisão. Me sinto muito só. As irmãs tinham ido morar na cidade, estudar e trabalhar. O cachorro ainda não falava, era pequeno. A vizinha era velha e não conseguia conversar nada que não fosse relacionado aos malditos porcos que comiam sua macaxeira. Além de tudo ela cheirava a óleo de copaíba. E cheiro de corpo, claro. Os anos se passaram, ele a construir cercas, ela a reclamar da solidão e do desejo da televisão. A resposta era sempre a mesma: - Tá doida, mulher. Televisão não é coisa pra gente não. Aquilo ali é o demonho. Só passa coisa que não existe pra gente, que nunca teremos, lugares que nunca iremos, quer que a gente gaste o dinheiro que não temos e que acreditemos na ciência. O pastor disse que a Tv aliena que nem aqueles que vêm nas naves do céu, de vez em quando. – Mas eu quero uma televisão, ela disse. Me sinto só. Quero ver novela, quero ver como é o mundo lá fora. Mas não vai ter, na minha casa não entra esse instrumento do capeta. Somos mais felizes que aqueles casais da novela. Me dá um copo d’água, encerrou a conversa, à contragosto.

Os anos se passaram, a família ganhou novos integrantes, um por ano, assim como a flor que ele tinha trazido pra ela da mata, florescia a cada menino novo. Era uma lindeza só. Mas a solidão e o desejo da televisão continuavam a existir. Ele a construir cercas, ela a reclamar, cada vez mais com aquela cambada de meninos, da solidão. Nunca tinha ido à cidade. Não fazia idéia de como era. O pai nunca deixara por medo de não querer voltar mais. Tinha uma construtora trabalhando na pavimentação da rodovia. Tinha muito homem. Muito homem querendo mulher. Com dinheiro. E era tudo isso que as mulheres queriam: homem e dinheiro. Uma chance de sair da roça, do assentamento, da poeira, da pobreza.

Uma criança ficou doente. Depois outra e depois mais uma. Daquelas doenças que não dá pra esperar passar tomando chá de casca de ipê-roxo ou copaíba e descansando. Precisavam ir à rua. Precisavam de um médico. Ele precisava construir cercas. Ela acabou levando as três crianças enfermas e o filho mais velho pra ajudar. Chegando à cidade, as crianças tiveram de ser internadas. Era grave, mas a mãe estava tranqüila: no quarto do hospital tinha uma televisão. Ela ficou maravilhada, assistia com atenção cada palavra e cada som enquanto a criança chorava desesperadamente com dor, ela só conseguia ver as propagandas de viagem pelo mundo, as mulheres bonitas, bem vestidas, passeando em Ipanema. Foram três semanas de muito entretenimento, alegrias, tristezas (acompanhou fervorosamente todas as novelas) e muita informação pelo Jornal Nacional.

As crianças receberam alta e estavam bem para poder voltar pra casa. Quem as acompanhou foi o irmão mais velho. Chegando lá, o pai que tinha acabado de construir a última cerca do dia, olhou pro menino como se já soubesse. O menino tirou do bolso um papelzinho escrito com letra de quem acaba de aprender a escrever: “Você pode não querer uma televisão em casa, mas não pode me impedir de sonhar.”

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

calo nas mãos
não a boca.

viver uma vida de paixões platônicas
de letras, de vida
de arte que imita
isso que é vida

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Vem, pode entrar.

Bom dia, cortador de grama. Abri os olhos e o sol não veio, só o som. Perturbador, insistente e atrevido de grama tosada. Alguns pássaros sorriam com gargantas gasguitas enquanto outros cantavam um bom dia pra você também. Poderia ter chovido mas era só atrevimento. A gente sempre pode, deve, esperar menos do clima. Nunca é o que queremos. Nunca estamos satisfeitos com as condições atuais, em nenhuma ocasião. Está calor demais mas poderia estar frio. Está frio demais mas poderia estar calor. Chove muito mas poderia estar fazendo sol. Poderia estar no horário de verão para assistir o Jornal Nacional à tarde, mas só tinha novela ruim. Eu poderia dormir até tarde mas quando acordo me sinto mal. Poderia acordar cedo mas passo mal ao tomar café. Os tempos mudam, os hábitos alimentares, os ventos e os sentimentos.Mas os conselhos, ah, esses são sempre os mesmos. Só muda o orador da frase e a frase do dia é: organizar a casa interior pro vento bom, e afins, poderem entrar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

impossível competir com o fim de semana.

Prefiro escrever na tela do que na janela. 

O conto da galinha a menos.

Sonhei que no galinheiro tinha uma galinha a menos e escrevi um conto, o da galinha a menos. Eram várias, iguais como galinhas, mas tinha uma faltando. Não como galinhas ela disse. Como não? E como é que falta uma galinha? Foi bem o porco, ele disse. Aquele que vem do mato, acrescentou. 1, 2, 3...(seguiu contando)...27...viu! Tá vendo? Tá faltando uma galinha e vocês vão ter que dar conta dessa galinha. Mas o senhor acabou de contar, tio. Até parece que não é acreana essa menina velha. 8 anos, tá? Grandes merdas. Cadê, não vai aparecer não quem deu sumiço na minha galinha? Silencio na fazenda. Ouvia-se o piscar dos olhos e só. Póooh (abafado). 135mg/l de adrenalina correu nas veias de cada um dos que olhavam e se perguntavam: Cadê a porra dessa galinha, Jesus. Ele saiu farejando que nem cachorro, vira-lata mas tem seu valor, os cantos da casinha de paxiúba, onde eles guardavam o milho, o tal de paiol. Pior é que vocês acham que me fazem de besta, né não? Deixa estar que eu vou achar essa galinha e depois quero ver quem vai contar essa história.

Quero ver quem é que vai contar essa história.
Quero ver quem é que vai contar essa história.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

tem dias que a noite tem lua

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Bala de troco. Que coisa triste.

Tão vazio como meu estômago ao meio dia. Tão profundo como último livro lido- de colorir-.Tão nutritivo como o sanduíche noturno que faz você se revirar, arrotar e ter pesadelos pesados. Tão inspirado quanto aqueles que aspiram. Ai, esses que me rodeiam. Fazem esse mundo girar do lado avesso. De dentro pra fora como uma dor antes de começar a ser sentida. Como um pássaro pousando antes de nem ao menos ter voado. Essas ruas recém-pintadas que mudam de rumo como se muda de roupa e/ou de companhia. Esses semáforos que incitam o ódio e a paciência necessária do dia a dia. Esses desvios involuntários por ruas (re) conhecidas. É a minha última saída. A única placa que me guia é o orgulho que me salva. Mas é muito pouco. ´
É pouco demais. Não cabe na mão. Não enche uma colher. Nem um conta gotas dá conta de contar. Mas eu conto por que teimosia e persistência, e não insistência, me são inerentes. Sou leonina, porra. De nada me vale sem se valer a pena. De nada vale a pena senão o pássaro. De nada vale o cavalo senão os dentes. Nada a ver isso aí, viu.  Dou valor a cada centavo e há quem chame isso de mesquinharia. Mas quem irá me poupar senão eu mesma? Aprende, filha, não espere do outro aquilo que ele não pode te dar. Não se contente com balas escusas.
-Mas eu só queria meu troco.