domingo, 26 de julho de 2009

não sei o que há
sinto metros cúbicos de dores.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

título à definir.

Se estava tocando música clássica, provavelmente era beethoven. Mas por causa daquela nota tão previsível depois do lá sustenido menor, não era. Assim como os acordes, ele era imprevisível. Ou o fato de tanto ser previsível na sua impresivibilidade, que eu sabia que não era ele. úúúúúúúhhhhffffffffffff (onomatopéia de vento frio). Estavam de mãos dadas. Delicadas e macias, diferente dos seus pés. Mentira, não tinham pés. Metáforas. A cada esfregada - da crista do cavalo - elas vinha correndo pegando impulso e se jogavam pra frente em pliês de tutus, filós, pas de bourrée, manèges e petit a petit se espatifavam no ar. Iam e vinham numa dança frenética, intensa e por incrível que pareça, sincronizada. Mas agora espera, preciso contar a história desde o começo.

Seriam milhares, muitas, multidões, se fossem pessoas e não matéria. E como em todos os lugares onde muitas pessoas existem e coexistem, existem também conflitos, deformações, confusões e desentendimentos. Fatos também da matéria. Aos montes, algumas gostavam de molhar, abafar, cozinhar, irrigar, irritar, outras de inundar e outras apenas de umidificar. de frescar mesmo.

- Vim da frança. Eu do Camboja. Eu da Malásia. Rússia. Noruega. Cazaquistão. Oceania. Marrocos. Espanha. Canadá. México. Ilhas Malvinas. Austrália. Índia. Alemanha. Bruxelas. Argentina. Uganda. Estados Unidos. (Uhhhm, ácida tssssssssss ) e eu do Acre.
- AAAAAcre? -todas em um coro só. (queria muito poder reproduzir aqui esse som. quem sabe um dia eu compre um gravador mental ou sintetize os sons que saem da minha cabeça ao presenciar essa cena sonora tão singular. Plural. desculpe moças.)- Que país é esse?
- Fica no Brasil.
- Ahhhhh, Brasil. Então você é das boas. Vem da amazônia, ares e seres puros por lá.

Não entendiam muito de geografia mas eram bem voláteis e conversavam, discutiam, se conheciam apenas por conhecer. Como se não houvesse aquele tal de amanhã. Talvez nunca mais se encontrariam denovo, só se fosse no próximo ciclo biogeoquímico. Não tinham tempo à perder visitando e elaborando propágulos internos que explodiam alfinetes. As vezes, pareciam ser uma só olhando de longe e de perto também. As vezes se irritavam com isso. Não gostavam de ser consideradas seguidoras, vão com as outras, discípulas. Não, não. Cada uma pensava, fazia, falava de um jeito. Um jeito só. que por sinal, era igualmente sem personalidade. As chinesas que eram piores, coitadas. Não tinha como lutar contra sua natureza estrutural. - Lá vem elas.

- No próximo ciclo, quero morar nas rochas. Arrancar pedaços e virar mineral. Perceberam como o sobrenome mineral tem um status nos dias de hoje? Se eu der sorte, vou pra dentro de uma garrafa linda, com um rótulo lindo, pra dentro de uma boca linda...imagina eu me mandando pra dentro do Jude Law? - Ah, ai ai Harebaba, falou a indiana.

Tinha uma que sempre se destacava, e nem sempre era por bem, no meio das outras. Afinal, sempre tem um que quer ser o importante no mundo vivo e não poderia ser diferente na matéria. Sempre tem aquela que tem características megalomaníacas e psicopatas. Não deixava de ser. Era muito comuns suicídios naquelas bandas. Eram corajosas por que tinham certeza que nem a lei e nem o deus que as regiam, ia puni-las privando de um retorno triunfal num próximo ciclo. Se pudessem assim se assumir, mandariam encomendar purpurinas e pelúcias pomposas. Se jogavam mesmo, sem dor, dó e nem piedade. As vezes com alguns fluidos incolores, como eram. Quando ficavam tristes assim, simplesmente se desestruturavam. Perdiam partículas elétricas agregadoras de íons de sulfato e nitrogênio para virar simplesmente uma fórmula química monossilábicacápsuladupla. Só. Via-se de longe a tristeza. Tem muitas vezes por aqui, mas é por que são muitas vezes mesmo, antonimamente e diferente de sempre, não há outro sinônimo cabível no contexto.

-Incolor? E você que é insípida!

Houve um silêncio geneneralizado e azul. Esclareço: não há pior xingamento no mundo, em todos os mundos, de todos os adjetivos desagradáveis possíveis, impossíveis e imagináveis do que o trio ternura do desgosto, literalmente: Insípida, Incolor e Inodora. Era o fim. De repente se via suicídios coletivos, vácuos a baixo. ( eu disse que era muito comum). As que conseguiam seguir em frente, esperavam apenas mais um vendaval para se espatifar num vão sem fim que é o infinito e afogar suas mágoas. afogar. águas. Tinha ala das mal bebidas, desquitadas, deshidrogenizadas, das sujas, das coloridas e das mal cheirosas. Era um vasto catálogo, quase um pasto. Algumas cheiravam pó e seus narizes tinham cicatrizes horriveis, cujos lenços de papel eram acusados de terem influenciado gripes. (era mentira. nem tinham narizes.) Incompatibilidade de neurônios. Dos últimos que sobraram. Sinapticamente falando, coisa de química mesmo. Vai saber.

(...)



terça-feira, 21 de julho de 2009

Dê - Cérebro Eletrônico



dê amor,dê paixão,dê segurança,dê prazer,dê carinho...
lindaça.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

poderia ser um texto, mas não é


carta de recomendações:


adjetivos patenteados não podem ser reproduzidos sem prévia autorização, muito menos póstuma. as fragrâncias da memória andam por baixo de pés de laranjeiras, sob sete palmos anões. a ostentação não deve ser reproduzida em casa por crianças, idosos, zumbis, monstros e nem animais contaminados por outros animais contaminados, tipo aqueles que habitam as mentes. quando se fala em mundo, se fala em mundo muito inteiro, não só uma banda. quando se fala em sonho, não se trata daquele que vende na padaria, muitas vezes dentro vejo pesadelos. apesar de você achar que as tesouras, vassouras, plásticos descartáveis, câmeras fotográficas e lápis (no plural) de cera- o giz vocativo- copos de cerveja, sofás de couro cabeludo, doces coloridos (que mal há?), estrelas, luminárias, luas, geladeiras, lençóis manchados de sangues heterogênios e multi dna's, plaquetas e placas bacterianas, escova de dente vermelha de pasta, porta e alma escacarada e estuprada por aqueles que não devem ser nomeados- jamais- papéis, pênis, tênis e brincos solitários adotados alheiamente, bicicleta, monociclo, monoteta, brusquetas, bolsinhas, filhas e gatos, nomes compostos, aviões, lágrimas conjuntas, telefone celular, copos diamantes, painél de madeira serrada, pulsos e água com sal têm alguma coisa em comum, eu continuo achando que aquele quadro pendurado, poderia ter uma inclinação de 15° pra direita, pra que eu pudesse admirá-lo com o pescoço caído e meus olhos enxergassem aquilo que foi escondido pelo pintor ou pelo fanfarrão do falsificador de obras, de palavras e de vidas.

domingo, 19 de julho de 2009

G#m

as ruas continuam vazias
mas cheias de listras, faixas brancas
e eu continuo à pé sonhando com sinfonias
de artistas mortos e ricos
mantenho meus pensamentos mais mortos do que vivos
vivo nas linhas
não consigo sair delas
música, música, música
vem pra mim em notas que eu não conheço
com sentimentos que me fazem cantar sóis menores
música, música, música
me faz pensar no mundo de linhas retas, ondas sonoras
magras, gordas, reverbéricas
pra eu embalar meu sono de dia
que é a qualquer hora
música, música, musica
me diz pra que tu existes na minha vida
se não é pra me fazer cantar
se tenho a voz tão desafinada e aguda
que nem meu cérebro aguenta pensar
me diz por que mãos que se mexem e se machucam
não conseguem seguir um ritmo só
que possa ser acompanhado por um maestro
com duas mãos delicadas, macias e com cheiro de cremes para as mãos
me diz por que eu que tenho dois ouvidos
um com mais cera, outro não
que não conseguem traduzir essas ondas que pairam por aí
enrroscam em fios de telefone, em receptores de satélites
e não conseguem chegar ao seu destino final
minh'alma anda meio sem sal.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

ó
dores
h(ó)
rrores

sábado, 11 de julho de 2009

eu, deserto P. D.

Tem crescido desertos em mim
Infinitos longos com gosto de jasmim
(só pra rimar)
Cheiros e cores de balas de festim
Tem crescido desertos, areias
O vento espalha pelas veias
A vontade de não ser só mais um grão

Na multidão dos milhares
Sente-se pequeno tal qual como era
Os peso da idade na barriga
Os traços da morte que passou na face
O deserda do seu destino que era um dia ser feliz
Mas pra que serve viver o destino se
O passado que te mata?

Não se sabe se foi, mas a dor do deserto
Vem rasgando o passado presente
Ao invés de flores delicadas
Cactus suculentos, agressivos na beleza
Frágeis demais pelos tempos
Que batem em suas pseudo folhas
(gordas)

Temporal em copo de areia
Vendaval de maldade veio, passou e continua vagando
Bate aquela vontade de morte
Tempestade em lágrima órfã
Se vão como se nunca tivessem existido
(que frase mais passada!)
Grão de areia perdido
Sem certeza do que o fim pode trazer

Aos montes, uma cáfila de sonhos montados
Que engole cada pensamento
Como se fosse amargo remédio
Verde lodo azedume
E aquela careta que não pode faltar

Um buraco ficou e no lugar, vida
No fundo dos olhos, janelas serradas
Da mais pequena e insignificante, fica na sua
Desertos que crescem dentro de corpos
Ventos do nordeste do sul do Brasil
Onde ventos fazem curvas
Não movem montanhas
E sim dunas.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

vem pra mim
nesse copo graduado
cheio de medidas que
desmedida eu bebo
me afogo
goela a baixo
de ti

Giselle, não tem nada de divertido em arrancar um dente.

terça-feira, 7 de julho de 2009

'o blog é meu e eu escrevo o que quizer e como quizer.'
Claro. Justo, Roberto.

- Me desculpa por falar com a boca cheia.
- Não tem problema me desculpe também por ter te abraçado e te beijado o rosto logo depois de sair do banheiro. Eu não lavei as mãos e tenho doenças sexualmente transmissíveis. Ei, pera aí! Não se procupe, se você pegar alguma coisa eu pago sua consulta, conheço um médico maravilhoso!



- ...
- !?

segunda-feira, 6 de julho de 2009

de cima me vi quebra cabeça.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

de Vik Muniz







Fui na sua exposição no Masp e me apaixonei por ele e por seus trabalhos. Assisti o documentário Worst possible illusion: the curiosity cabinet of vik muniz e conclui o que eu achava há muito tempo: não precisa ser genial pra fazer arte de qualidade, basta ter alma.

Vik Muniz

terça-feira, 30 de junho de 2009

coisa boa

é ter um amor sem passado
com gosto de vencido*





*crédito da frase pro Marquinhos.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Descobri que sorvete de creme combina com teu gosto
Que as ruas que me levam pro teu caminho
Passam por um lago pintado
De listras brancas, vermelhas e pretas
De plantas coloridas na pele
De guerras, danças e gritos cantados

Descobri que aquela flecha de anjo
Na verdade era flecha de outro
Tinha um pó extasiante
Parecia estar escrito na bula
Se tivesse, andava de costas pra lua
É hora de sentir de verdade
Com moderação pode abusar

Entrou de vez como num batuque
Abalou as estruturas coronais
De penas e pássaros
Reverberou com um canto
Como naquele canto que te vi
Pela primeira vez chorar

De mãos dadas com teus pêlos
Cabelos, me dá teus anseios?
Me vi do lado avesso
Esperando você me espiar

Foi naquele dia, na luz da tua
Que eu vi minha mão nua
Calos, cores, calos com calos
Me calo, e espero você voltar.

dos meus verbos pontuais

agora sim eu posso me livrar do arco-íris,
do relógio, da blusa, daquela caixa cheia de coisas,
de ventos, de cheiros, de guardanapos rabiscados com azeite,
e bebidas cevadas fedidas e verdes,
de segredos inconfessáveis,
não por mim, por eles,
e do quebra-cabeça que fiquei de te deixar na porta de casa,
eu virgulo.

posso me livrar enfim daquele grampo de cabelo.
achado por acaso no chão do meu chão.
da arte de enganar. que dias e dias foram nossos chãos.
nossos. fingido normal.
sim coletivo. plural. ésse no final.
péga. é de presente.
ela no fim e eu no começo.
ou seria do contrário. o avesso?
eu pontuo.

me lembro bem daquela música que diz em sons menores.... que dor é maior...
não é tua voz que canta... não precisa...as notas que me notam... me tocam...
com mãos e membros limpos....fluídos correntes e límpidos...

lembro daquele acorde maior...acorda faz sol....
te levo pra praia e te faço sorrir sem dó...
te balanço no colo, te mostro em aquários...
peixes estranhos a sorrir e festejar arpejos trasparentes...

debaixo daquele guarda chuva colorido...
cor sim cornão...sorriso amarelo mostarda...
acende um incenso com cheiro de patuá, pra disfarçar...
debaixo da camisa uma flor com espinhos...
agudos e bonitos...me espera na porta do cemitério...
que te vejo chegar...

eu pratico o verbo reticentiar

domingo, 28 de junho de 2009

Morangos frenéticos e a passeata sonora dos cegos

É tudo cinza. Céu, chão, faces e subterrâneos. Árvores tentam resistir nascendo, florando e sombrando como se fosse a última vez e respirando como se fossem únicas responsáveis, em meio aquela bagunça organizada em linha reta. Elas me dão medo. Me olham com cara de abraço. Às vezes eu sinto por não ser tão amável, mas isso me faz ser quem eu sou. Bom ou não, graças ao bom senhor. Por aqui cachorros passeiam, mas só eles. Senhoras solitárias têm seus momentos caninos da calçada. É meio triste ver todos aqueles semblantes preocupados com a vida e, mais do que nunca, com a morte.

Logo de cara: Passa a bolsa, passa o tênis e o casaco. Foram-se algumas centenas de reais e um bilhão de certezas que as coisas ruins só acontecem com o vizinho. Deve ter sido outra macumba mal feita. Placas, placas, letreiros, faixas, homens e carros. É muita informação pra dois olhos só. Como não tenho câmera fotográfica, (roubaram junto com a minha dignidade noutros tempos. Consegui recuperar só a dignidade) meu obturador pessoal registra a cada piscada, imagens que, se eu pudesse, reproduziria com as mãos. Mas não posso. Na minha infância ao invés de estudar artes, estudei música. E isso não justifica minhas falhas de caráter. Nada justifica. Só o Word.

Penso tragédias. Vejo um ônibus atravessando a rua e imagino um trem vindo de encontro a ele, amassando narizes e esbugalhando olhos. Eu sei que trem não anda na mesma rua que o ônibus, mas tudo isso é fruto da minha imaginação, como disse. Imagino pessoas se partindo no meio na calçada, órgãos, víceras, sangue e membros alados, seios e silicones jogados no passeio enquanto pombos procuram o resto de milho de pipoca que sobrou do verão passado. Imagino-me caindo em um precipício e lá em baixo só existem vermes de óculos. Entro no avião e imagino uma explosão, pessoas voando e eu sendo amassada por umas toneladas de ar. Até nas coisas mais simples como ao entrar no meu quarto no escuro e jurar que quando eu acender a luz um extra terrestre vai pedir meu cérebro, ou um monstro vai chupar meu sangue, ou até mesmo um homem comum vai me dar um tapa na cara, me jogar no chão e desmaiar no banheiro de remorso. Minha mente é absurdamente, eu sei, mas isso me faz ser mais centrada e estar preparada sempre para o pior. E quando o melhor vem, é um maravilha de bom.

Vi uma banquinha de frutas.Todas elas me pareciam deliciosas e o preço era três vezes mais barato do que eu costumava pagar em outros lugares. O que eu fiz? Como compulsiva que sou, comprei três cartelas de morangos. Lindos, vermelhos de dar água na boca. Botei na mochila, com cuidado para não amassar e depois guardei na geladeira. Uns dias depois tinha até esquecido dele. O frio me fez ficar um pouco mais burra. Parecia que os neurônios tinham dado um paradinha básica para o café quente, pra aquecer. Resolvi pegar um metrô, coloquei as cartelas dentro da mochila denovo e segui. Segui, segui, andei, andei- Caralho como essa cidade é grande- metros, metros, estações, metrôs, morangos. Abro uma cartela e começo a comer. Era tão suculento que eu senti que estava mordendo uma nuvem, vermelha, claro. Vermelho. Frio. Gelado. Morango, morango, calçada, mendigos, morango, lojas, pastelaria do chinês, vermelho, papelão, pedaços de marmitas encostadas aos postes, folhas, vermelho, morango, morango vermelho, doce, padaria, sons, sons, vermelho, morango, sons, doce, flauta, acordeon, meleca, doce, vermelho, cubos sonoros, morango, faixas de pedestres, branco, vermelho, morango, cabeludos, metaleiros, morangueiros, morangos, guitarras, dó-ré-mí-fá-sol-lá-si, vermelho, pentatônica, turuturpá, morango, vem de ré pra mim sem dó, baterias, suco, batuques, xeco-xeco, vermelho, cachorro, côcô, vermelho, -vamos dar uma entradinha?- como assim, entradinha, ô rapaz!?- vermelho, morango, suco, fiquei corada, ladeira, carros carros, vendedor de macaxeira (o que ele estava fazendo ali?), vermelho, suco, vermelho, escaleta, azul, daquela cor, vermelho, morango, - meu deus, que cara bonito!-, paixões instantâneas e voláteis, ladeira, portas, sons, notas musicais, eu e meus morangos frenéticos.

Parei, olhei e continuei olhando. Um grupo de pessoas, umas 30, atravessam a rua, duas a duas. Detalhe: uma delas estava vendada. Primeiro achei que era uma terapia de grupo para desenvolver confiança na outra pessoa, mas logo vi que eles eram cegos e seus cachorros estavam sendo treinados junto com eles. Passavam vagarosamente por cima da faixa de pedestre, listras bancas no asfalto preto, pareciam as teclas de um piano, ou de uma escaleta, que quem soprava era o vento frio que vinha do leste. Cada passo, eu imaginava uma nota, aumentaram a velocidade e pronto, logo vi: era a nona sinfonia de Beethoven.

sábado, 27 de junho de 2009

Em meio ao cinza gélido
pra colorir uso um arco-íris no pescoço
.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

acontece


aconteceu o que eu temia: virei uma amante da natureza e o pior de ser uma amante é ter que aceitar dividir, aceitar compartilhar algo que nem é seu de verdade, com outras pessoas que não são nem pessoas de verdade.

aconteceu o que eu temia quando falava dos algodões doces e dos horizontes de outréns. aconteceu quando achava bobagem um sentir tão abstrato que é dizer gostar de algo ou alguém. é abstrato, não se quantifica, não se dimensiona. se sente, se sonha.

aconteceu o que eu temia que qualquer árvore me faz chorar e nem todas são seringueiras ou marupás. aconteceu que pássaros vêm até mim querendo conversar. é como se eu tivesse um imã que virou reverso. meu reverso é do bem e eu só tenho esse agora pra usar.

ontem entrou um pássaro gordinho de peito dilatado pela minha janela. voou, voou se bateu e ficou a me observar apontando lápis usados. parecia querer me dizer algo com seus olhos redondos, estes que pareciam querer explodir de tão brilhantes. teve uma hora que eu pensei que ele ia se transformar num anjo, ou num demônio, vai saber. já tive mais medo das coisas bonitas da vida. deve ser porque eu tive uma nuvem preta, um isofilme 100% sob meus olhos que me impediam de enxergar as luzes, as luzes do céu e as luzes do teu olhar.

aconteceu que ao andar em baixo de uma árvore gigantesca, ela cuspiu uma flor na minha cabeça. esse tipo de cuspida eu adoro. era cheirosa e delicada. olhei pra cima e sorri: 'obrigada'. seus galhos pareciam querer me abraçar, mas eu sou tão pequena, sou tão pequena a te olhar. desculpa, um dia te alcanço. por enquanto posso ficar aqui, embaixo da sua sombra? preciso repassar meus sonhos acordada, tô cansada de viver e não sonhar.


demorou, mas aconteceu que consigo enxegar os horizontes que vão além, pode acreditar. Além daquela próxima castanheira ali, além do que os livros podem me ensinar. Além do meu céu, que é mais pro norte. além daquele cheiro forte que me faz lembrar.

aconteceu que meu perfume preferido não tem mais gosto de laranja e nem de dor. aconteceu, que pra retribuir, cuspi pra cima e meu cuspe virou flor.

domingo, 21 de junho de 2009

me disfarço
me desfaço
me deslaço
te abraço
no chão

terça-feira, 16 de junho de 2009


pegue um machado
amole
pegue um pano
para limpar o suor, vai precisar.
pegue também um punhado de sementes
das que tem bastante proteína
não esqueça do seu pó
proteja-se do sol
siga o rumo dele
afaste aquele cipó
aviste, mire, apunhale
dilacere, arregace
rompa, machuque
veja sangrar
sangue sem cor
sinta o cheiro, é cheiro de dor
ali ficou um pedaço aberto
outro pedaço se foi em suas mãos
volte daqui a uns meses
uns anos
veja se há buracos
não. fechou.
agora veja quanto cresceu
olhe seu interior
veja nos anéis, o que sobrou?
cicatriz que formou
tinha cara de cumaru-ferro
usava óleo de peroba
mas tinha cheiro de cravo
de defunto que tentou ser
por muitas e muitas vezes
até apodrecer
e cara, como fedeu.