terça-feira, 3 de março de 2009

Escrito nas mãos.

Foi assim, mesmo antes de nascer aquela incerteza. Lista de nomes femininos, lista de nomes masculinos e lista de nomes unissex. Eu sempre quis saber quais eram os nomes unissex, mas achei que não faria bem para a formação do meu caráter na infância. Enfim, depois de alguns meses mesmo com a confirmação do exame, o médico, ao puxar-me pelas mãos do ventre de minha mãe, disse: é um menino, veja que mãos grossas! Os outros médicos olharam abismados para mim, eu ainda com os olhos fechados tentando respirar gritei: "sou mulher, ora porra!". E eu nascia com um vocabulário vasto e com orelhas avantajadas, provindas de meus genes nordestinos paternos e patéticos. Minha mãe muitas vezes foi uma pessoa inteligente. Na verdade, acho que ela sempre foi.

Quando entrei na escola, no jardim de infância, minha afinidade me levava à ala dos que gostavam de azul. Nunca fui aceita na rodinha das que usavam rosa e brincavam de serem mães tão precocemente, sem conhecimento de métodos contraceptivos. Nesse aspecto, eu sempre fui a última a fazer tudo. E tudo inclui tudo mesmo. Eu brincava de pegar ladrão, andava de patins.Caía. Ralava os joelhos e tornozelos. Sempre tive o andar meio torto. Eles me pegavam pela mão e me chamavam de parceira. Eu gostava daquilo.

Colocaram-me na aula de balé, sapateado, jazz, piano, xadrez (veja só, xadrez!), natação. Eu me coloquei nas artes marciais. Para a tristeza de uma mãe que queria uma filha feminina, com amigas no quarto rosa, foi mais uma surpresa. Eu sempre dei muitas emoções pra minha mãe e me orgulho disso. No Kung fu eu podia ser tudo aquilo que gostaria ser sem deixar de ser quem eu era. Complicado, eu sei, mas só eu sei. Com as minhas mãos que dificilmente tinham calos, mais uma vez me destacava dentre aqueles que estavam ali para se auto afirmar, para aprender a brigar na rua ou pagar de admiradores das coisas exóticas do oriente. Segurei forte as oportunidades que tive. Fui até as últimas do meu corpo e dos meus joelhos. Com as mãos. Sobre elas, eu tentava explicar que era genético, herdado, mas gostava de pensar que eram só minhas e eu tinha o privilégio de tê-las minhas em todo o meu egoísmo manístico. humanístico de certa forma.

Larguei as cordas de violão e guitarra para usar minhas mãos na bateria. Me achei denovo. Sempre soube que não era da minha essência tanta sutileza harmônica. Tons, batuques, ritmos, velocidade, bit, vibe, emoção, adrenalina, extasy. O que importa é aquela coisa que eu não sei explicar, aquela mágica da música que entra. A música é uma coisa maravilhosa. Tudo do corpo, da alma, das mãos. Deu até vontade de chorar agora.

Enquanto isso, cumprimentando pessoas que se assustavam, levantei e dei os dois passos mais importantes da minha vida: passo na faculdade e passo a ter consciência do que vou um dia ser. Essas coisas de natureza nunca foram meu forte mas estava escrito nas mãos. Quem diria que um dia eu, pequena menina burguesa mimada, pegaria numa enxada, cavaria solos, tocaria árvores, sentiria a textura do pêlo macio de um bicho-preguiça, faria cálculos volumétricos ou mesmo faria manejo de frutíferas na beira de um rio tão grande, mas tão grande quanto a incerteza, de barco quase dentro dele, do rio, quase parte do fio do horizonte. Ninguém diria.

Não há creme hidratante que dê jeito. Tratamento de estética, macumba ou promessa para são-qualquer-coisa. Não há cartomante ou cigana que diga o contrário. O meu destino? Ora o meu destino quem diria: está escrito nas mãos.

Olhos de noites tristes.

noite triste por olhos idem declama fluidos abaixo. verbos vagos outrora ricos se perdem em meio ao mar de dor. as árvores podem sentir quando o vento vem na tentativa fracassada de secar os molhados. eu posso ver muitas verdades saindo de lá que só eu e salvador dali, acreditaríamos. é triste sim. mais triste por que não tem volta. mais triste por ter que fingir que não se importa. mais triste ver que foi tudo para um abismo sem fim. jogo pro tempo resolver na esperança de vê-lo resolvido. por entre memórias de olhos tristes de noites tristes de vidas tristes, calo e ouço. boca cerrada por pregos a transbordar lástimas, estas que saem por todo o corpo. sinto estar à beira de um fim que não se sabe ao certo qual deles será. que seja o menos doloroso, por fim. que seja o menos infeliz, por mim.

segunda-feira, 2 de março de 2009

tenho medo de confissão
não pelo sermão
(nem batismo tive)
segundo minha vó, não vou pro céu mesmo.
tenho medo de não sentir culpa
ou como diz a música: eu caçador de rins.
minha culpa engulo num copo de vidro
sujo de sangue e sebo de mãos compartilhadas
sem a escolha que não teve
de escolher ou permitir
tenho raiva do meu lado escuro.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Não seu.

eu perco por perto mesmo longe de mim
eu sinto que peço apenas um pedaço de sim
que eu velo que choro que curto que rezo
me perco por perto de partes complexas de si

eu juro que vivo que vim vivi vi e venci
não juro que nego que ao olhar pro lado teu calor eu vi
não finjo não sinto apenas para muito fazer e pouco sentir
eu perco por perto de partes complexas de mim

é como acordar e se rir
é como o tempo voando sem fim
é comungar e te ver
é como o 'A' que eu fazia pra você


me fujo me sumo me uso me escondo de ti
por portas janelas muros e sorrisos e afins
de frente de costas surda e muda ouvi
sem olhos sem corpo e sem coração decidi

que é como uivar e sentir
o vento claro da lua que vi
é como nascer e ver
o mundo com outros olhos
o meu mundo sem você.

é como lembrar e fingir
que era apenas um sonho e
voltar a durmir
é como te ver e não te querer
ouvir a voz dizendo se arrepender

e o espelho apenas sorri.

Chavão de quarta

só sobraram as cinzas vermelhas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

tanto faz
sem voz é melhor
ouvir com os olhos
ou mesmo pensar
só em silêncio eu
te enxergo no escuro.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

ele se foi e eu nem tive oportunidade de me despedir.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

só lembro que choveu.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

De boca em boca: à boca.

Depois de muito ir e voltar, fugir pra as terras distantes que alguém descobriu, voltar para as terras que quase ninguém sabe de quem, passar por chãos quase sem fim, onde o olhar se perde por entre o chão desnudo que deixa marca onde toca e, se tiver sorte ainda, consegue-se chegar ao destino se não for época de água ou inverno como dizem por aqui. Mesmo sabendo que não existem estações definidas por essas bandas a não ser a estação de ônibus de milha em milha, barro em barro, pedra em pedra, pasto em pasto: Voltou. Como se nunca tivesse ido pra onde nunca queria ter voltado, pelo desejo de nunca dali sair. Com medo de encarar o próprio mundo, danou-se a encarar o dos outros. Vinha com uma mala velha verde musgo e um calendário onde marcava quantos dias estava longe dos seus. Falava mais que a boca que tinha e de todos que a rodeavam, inclusive sobre os mesmos. Vinha contando com sorrisos os cantos, trancos e barrancos passados.

A cunhada era casada com um traficante que estava preso na delegacia. A delegacia, por sua vez, parecia um clube. Todo fim de semana tinha churrasco e cachaça pros presos. Algemas? Não precisava. Vezes quando eram liberados de suas sentenças, tratavam de cometer outro crime para voltar pra lá. Sem mentira, era um local muito desejado. Ao lado do bar mais badalado da cidadela, onde vendia a melhor cachaça da região vinda pelas balsas dentro de barris, tinha um policial que assaltava os traficantes, vendia e consumia junto com os companheiros da cadeia. Criou-se uma relação de irmandade. Coisa bonita de se ver, dizia ela.

Certa vez, a cunhada que não era muito chegada à banho como muitos dali, perfumou-se, pintou-se, colocou a saia mais curta e seguiu para a visita, que nem precisava ser privativa pois não haviam restrições : - Achei estranho. O Delegado estava para a capital e quem estava no posto era a esposa dele. Professora de geografia. Estorquia qualquer crime por qualquer nota de cinquenta. Liberava os ladrões de galinha aos fins de semana para garantir o jantar. Dirigia a caminhonete da polícia para ir arrumar o cabelo no salão.

- Vim trazer comida pro meu marido, disse ela. E essa criança? É filha. Loira, com esses olhos? São do avô. Venha cá , deixe eu te revistar. De cócoras. É preciso mesmo passar por esse constrangimento na frente da criança? Você tem R$ 100? Não, tenho umas trouxinhas aqui. Colombia? Bolívia. Vou ter que te prender. Na minha cidade não entra esse tipo de coisa não. Mas dona delegada eu não posso ser presa, tenho minha filha pra criar, não há quem cuide. O que você acha daqui, menina? Gosto da cor da parede, dona delegada. Certo, já que gostou, não vai ter problemas em vai ficar na cela com a sua mãe. E assim ficou por lá, durante quatro meses até que voltassem as aulas da menina. A mãe foi liberada também. Vendia roupas e sapatos roubados na feira com o marido, que vivia saindo à cidade pra comprar cachaça e galinha pro churrasco do feriado próximo.

Caboco é bicho imundo, dizia. Não tomam banho e olha que vivem na beira do rio. É pura imundice mesmo. Em uma conversa com vizinhas e comadres, foi surpreendida com um comentário infeliz de uma mulher idem: No Acre só tem galinha. Como é que é a história? É isso mesmo. Os homens que vem de lá dizem que são galinhas e ao chegar em um restaurante pedem acreanas caipiras. Isso é coisa de rondoniense, maninha, que morrem de inveja das acreanas que são mulheres bonitas, cobiçadas e sabem fazer o negócio direito. E você com essa cara de macaco misturado com cruz credo vem falar das acreanas? Prefiro ser galinha que toma banho até no seco do que ser uma porca gorda, fedida e suja como do seu tipo.

Rabissacou e seguiu seu rumo. Deu a mão e: Dá uma carona? Claro, tô indo pra Rio Branco e você? De volta a terra que nunca desejara ter saido, pelo mesmo motivo de não ter que um dia hesitar em voltar.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Eu rio, tu ris.

Legal deve ser tomar banho no rio e ver o céu passar depressa. Mas como dizem que o azul do céu é reflexo da água, meu céu deveria ser marrom e as estrelas não teriam o brilho que têm em noites de céu sem luz. Por que em noites como essas fica difícil de se ver além. O brilho dos olhos de alguém pode dar medo se não se souber que não se faz por gosto. Simplesmente o é. Se não conhecece o rio acre de nome, tomaria banho nele. É um rio bonito apesar de ser feio. Quando cheio, como agora, parece um caldo de cana ou suco de cerveja. Onde botos e peixes feios nadam na esperança de não serem servidos na próxima sexta feira santa. Todo santo dia ele se renova. o rio. Legal deve ser poder banhar-se sem medo em suas águas, sem imaginar de onde saiu e por onde passou. Por que assim como o rio passa e arrasta pedaços pelos caminhos passados, pessoas também o fazem. Levam pedaços seus sem que se dê conta. Vezes fazem bom uso de si, vezes guardam na gaveta do armário onde ficam as coisas que não devem ser queridas. Acho injusto jogar no rio ou no mato. Ambos são tão preciosos. É tudo tão simples e descartável ao mesmo tempo que é odiável. O rio daqui não acaba no mar. Pedaços meus por aí, eu não sei aonde um dia vou poder encontrar. Talvez disputando alguma árvore da margem ou empregnada em peles manchadas do sol do céu marrom.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

quero a sorte de um amor de fotografia.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

é

foice. como se nunca tivesse voltado. força na forca. ondas da voz não te perturbarão mais. me diz que foi-se mas nunca quiz ter ido. e meu abraço continua aberto e vazio.

Verde musgo.

Tenho nojinho de gente que é sempre feliz demais. A Alegria do algodão doce além do horizonte passando em baixo do arco-íris é doce demais pra mim. Tenho andado amarga. Maldade guardada na gaveta. Suco gástrico na escova de dentes. Sanguessuga na pele. Pulso. Repulsa.

Constrói-se dicionário de impropérios. Aceita-se doações.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Só chove em mim.

Impressão minha ou essa nuvem só está sob a minha cabeça?

De Sang'real

Eu olhava, analisava os traços, procurava semelhanças. O formato do rosto era todo do pai. redondo. presidende. português. sem barba. O nariz afilado, pequeno, singelo. Olhei mais, olhei, passeei por todos os pontos do rosto tentando achar, sombrancelhas, boca. Tudo era muito vago. Quando desisti de encontrar, em uma súbita mudança de ângulo: as orelhas são as mesmas.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Nem o espelho me agrada mais.

Parede colorida

Tudo aqui é sobre eu
por que mim não conjuga verbo
unhas partidas em partes ímpares
ou partes de eu
acho que esqueci
como ser alguém
além do mim desejado
agora já é tarde
não tenho mais teu endereço
e em ruas próximas
eu esqueço
do que um dia era pra ter sido
meu mas não deu
nem escrito com luz.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Ir-se dói-se.

sábado, 24 de janeiro de 2009

199 e bolinhas.

Não tenho paciência para assuntos antigos, como os da época do colégio. Estranho é não sentir falta da minha melhor amiga. Sim, eu tinha. E tenho até fotografia. Naquela época era muito valioso ser melhor amiga de alguém. Era muito valioso você poder contar os seus problemas de casa que, aos ouvidos dos outros, eram apenas coisas de menina mimada. Ou de confessar, sob jura de morte, a paixão pelo coleguinha ao lado e até mesmo sentir-se envergonhada por nunca ter beijado na boca.

Os planos de crescer e fazer faculdade só serviram pra alguns. Alguns não entraram na faculdade e outros...não cresceram. E com o passar do tempo, eu continuo achando que nem todo o pra sempre é pra sempre mesmo, e como ja disseram por aí : o pra sempre sempre acaba. Se as coisas, se a vida seguir uma lógica natural, essa fase vai passar também. Como hoje me incomoda alguém que eu estudei na 7° série querer ter a mesma intimidade que tinhamos quando éramos apenas crianças, espero que daqui a uns anos eu me incomode ao ver fotografias e ler textos de um passado meu que, infelizmente , ainda é presente.