segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mas que me devore adequadamente.
Com o corpo e com todos os compartimentos contidos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Nem sombra e nem reflexo. Só a certeza da dúvida converte.

sábado, 21 de janeiro de 2012

amor dado não se devolve.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

e passeando pelo seu rosto, o bigode, também seu, sorria para meus dedos. cantarolávamos, líamos e ríamos de lá, em lá e todas as suas variações sonoras e silábicas.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Do outro lado

É um buraco reticente que vai cheio de memórias que nunca cessam. É um passado cheio de pontinhos que ao ligá-los me chegam até ti, caro. Que me é árduo ver e sentir esses novos rumos e novos ares sem mim inteira e nem em partes. Sem mim mesmo. Olhando pra frente sem olhar para o passado, te admiro e acho ousado. Sem aprender com o que se passou os erros serão recorrentes. Desconfio da sua técnica de seguir os sinais de trânsito da vida. E há uma beleza nisso. Desligar-se abruptamente pode causar curto circuito. Ou longos que foram os anos, pareceram décadas. Que bom que encontraste outro fio pra a ti se ligar. Que a cada hora parecia um matrimônio anônimo entre o amor e a vida e vice e versa. E todos eles, os tempos, passam, mas ficam. Foram mas são. Como já dito, em cada canto, cada esquina e buraco aberto e fechado à força do seu pensamento. Engasguei de olhos abertos e marejados como o litoral azul que brevemente nos pertenceu. Sorri com cada volta do estômago para não demonstrar comoção frente a ti e a todos. Chorei com a ponta dos dedos dos pés, de baixo pra cima, cada quilômetro percorrido. Aposto que ninguém viu. Aposto que você nem sentiu todas as vibrações que os meus soluços por ti se jogavam à frente, molhados e compartidos. Não era minha intenção me fazer ser entendida. Afinal, a sentença foi dada até segunda ordem sua. Não vê os caminhos cruzados diariamente e nem a calçada que costumava ser minha. Hoje, outras rodas. Hoje, outras voltas e hábitos. Comíamos coxinhas e comidas com sotaque. É um hiato eterno que já se tornou plural. Mais um não só o torna verdade, eu sei. Mas em quantos anos esses passos serão apagados? Em quantos pixels as imagens vão se desvanecer? Quantas vezes precisará ir a todos os lugares que estivemos e que a dor seja substituída pelo carinho? Um sorriso de canto já me é suficiente. Para que o diálogo tome lugar do silêncio? Para que nossos olhos não prefiram mais o chão e sim um ao outro? Pra esse abismo construo uma ponte há um ano. Não espero medalha de honra ao mérito, nem estrelinha e muito menos certificado de participação na sua vida. Um dia chego do outro lado.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

tentando deixar de ser eu
pra ter alguém além
de mim.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

da escrita

minha inspiração é como faísca. leio um texto, uma poesia e olha cá, lá estão as palavras, rimas e inverdades querendo sair que nem calha entupida depois da chuva. Ela, água dela, não apaga minha faísca. Acende até fazer calor e eu não aguentar mais essa dança dentro da minha cabeça. Abro a torneira, desentupo a calha e deixo sair.


Só que as vezes não sai.

antes sofria

hoje sou frida
de cores frias

domingo, 20 de novembro de 2011

vermelhas são as olheiras da tarde.

sábado, 19 de novembro de 2011

Da camiseta

Receio em pedir de volta a camiseta. Medo. Daqueles medos que se tem de saber a verdade por que mais que seja ela ruim. Fingir que é boa também não adianta nada. Ela foi minha mas tão tua ao mesmo tempo. E não lembro, mas acho que foi de muitos outros antes de nós. Usávamos eu e tu e às vezes ao mesmo tempo. Mas acabou ficando sem mim. Ficava melhor em ti, confesso. Todo cinza é teu e isso nada vai mudar. Está registrado em ata. Se carregas contigo ou se guardas no fundo da gaveta junto com aquelas que estão furadas, com as mangas rasgadas, talvez comida por traças, manchada de água sanitária ou simplesmente apertada, se mandaram-te queimar ou doar para necessitados ou fizeram-na de pano de chão: não me importo. Só queria certificar que ela passa bem mesmo amassada.

do vazio que se preenche de si mesmo

tem mais você do que eu aqui.

das nuvens

gosto muito das nuvens que conheço

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

metade

Você não precisa de uma banda pra ser feliz.
Precisa ser inteira.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ele disse: casa comigo
ela disse: apartamento.

Aqui ontem há um ano.

Rezei para que o hoje fosse daqui a dois anos
Que eu estivesse grande, fosse moça e tudo resolvido
Ontem, sonhei pra que fosse eu ao seu lado
(ontem, há dois anos)
Que tudo que passamos fosse futuro e não passado
Não haveria quase nada a se arrepender
Nada de marcas, nada marcado


Chorei quando você foi embora
Sabendo que futuro também seria
‘Que se foste é por que não deveria ter vindo agora
Ou não, vai ver que era pra ter vindo mesmo assim
Eu que não deveria

E ter ido como se foi fez-me como hoje sou
A ti também fizeste, que sei
de ontem há dois anos a frente
Eu me fui. Se fosse no futuro, no passado também.
Pensaria em tudo de novo, com algumas mudanças
(cometer o mesmo erro não faz parte de ontem pra frente)

E se o destino viesse hoje, lhe digo: não sei se ia.
Não sei se o trocaria por praias, coqueiros, uma horta ou jardins
Nem se cantaria a música, sem palavras, aplaudindo aos céus
Não me sendo, tudo e todos para ti
Não veria tantos e tantas, fingindo aquilo não querer
Hoje eu sei: não fui.
Mas depois dessas rimas tão ruins: um dia posso vir a ser.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

adeus

dando adeus à nuvem negra
(que se despede com chuva)
aceno alegremente
agradeço os momentos sofridos
(mas sem sofrer na despedida)
nem com augúrios saudosos
nem cicatrizes feridas

adeus nuvem negra
vá molhar outros chãos
(cabeças)
aqui só tem espaço pra inverno
não mais tristeza.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

tempo

mais um mês e eu não consegui virar a página.
(do calendário)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

poeira é pó

poeira é pó
aos montes
não importa de onde venha
o coletivo de sujeira
é sempre mais de um
trago uma caixinha
cheia de piuns de presente
pra pó e poeira
é o equivalente com afeto
um pote de barro, poeira
guardando água
vira lama?

procura-se um gênio ao contrário que me caiba.

Solidão Televisão

Eram um casal daqueles cuja história se repete. Ela, aos 15, para sair de casa, sonhava em se casar, ter sua própria casa, filhos, horta e televisão. Ele, aos 18, para descansar a mão, queria arranjar uma mulher, que não fosse sua mãe, para fazer sua comida, lavar sua roupa, que fizesse um carinho, lazer e filhos. Ah, e queria ter um açude para criar peixes. Conheceram-se quando seus pais discutiam negócios. Um boi por um cavalo. Um porco por um galo. Uma fêmea pelo macho. Ele achou bom. Ela pensou: é o que temos pra hoje, e achou bom também. Não aguentava mais: está na hora, já é moça, princesa, a tua prima, a vizinha e a filha da Cleyde já, e tu, cadê?

– Tá, eu vou. O pai deu um pedaço de terra dos fundos para construírem o seu novo lar. Ele, habilidoso, trabalhador, musculoso, sem dente, mas charmoso, foi na mata, tirou umas piranheiras, umas palhas, umas paxiúbas e construiu o ninho de amor (este que ainda não existia, mas diziam que era questão de tempo: uma hora você aprende a gostar). Cláudia sentou-se.

Matou-se um porco, pescaram-se alguns peixes, fez-se brasa e muita festa na família para celebrar a mais nova união, em nome de Deus, a mais nova chuva de benção – em julho- naquela comunidade. Só se pensava nos netos, bisnetos que estavam por vir. Ela pensou que por mais que nem conhecesse seu companheiro, não deveria ser tão difícil ter uma vida a dois, de início, mas depois a três, a quatro, a cinco...quanto viesse e quanto coubesse na casa. - Quero muito menino, ó. Correndo, se trepando nessas árvores, ajudando a descascar macaxeira, cavando buraco. Menos trabalho pra gente, né? Riu. Ou não, eu completei mentalmente.

Cada um levou o que era seu, quase nada, pro barraco com cheiro de madeira morta. –Tu gosta de mujangué? – Tu prefere chuva ou sol? – Acha que o padre é biba?. E foram se conhecendo. Os anos se passaram, a Cláudia que esteve sentada por muito tempo, levantou-se e eles passaram a se gostar. O dinheiro da agricultura não era muito, mas sempre foi o suficiente para alimentá-los, os dois e um embutido na mãe. Quase três. Seus pais se mudaram pra cidade e o terreno ficou grande e vazio para duas pessoas e meia. Enquanto ele trabalhava no quintal, construindo cercas de mulateiro para o gado não fugir para o terreno do vizinho, ela reclamava do peso do meio em sua barriga. Mesmo antes de o pequeno pensar em vir ao mundo, ela sempre pedia: Môr, quero uma televisão. Me sinto muito só. As irmãs tinham ido morar na cidade, estudar e trabalhar. O cachorro ainda não falava, era pequeno. A vizinha era velha e não conseguia conversar nada que não fosse relacionado aos malditos porcos que comiam sua macaxeira. Além de tudo ela cheirava a óleo de copaíba. E cheiro de corpo, claro. Os anos se passaram, ele a construir cercas, ela a reclamar da solidão e do desejo da televisão. A resposta era sempre a mesma: - Tá doida, mulher. Televisão não é coisa pra gente não. Aquilo ali é o demonho. Só passa coisa que não existe pra gente, que nunca teremos, lugares que nunca iremos, quer que a gente gaste o dinheiro que não temos e que acreditemos na ciência. O pastor disse que a Tv aliena que nem aqueles que vêm nas naves do céu, de vez em quando. – Mas eu quero uma televisão, ela disse. Me sinto só. Quero ver novela, quero ver como é o mundo lá fora. Mas não vai ter, na minha casa não entra esse instrumento do capeta. Somos mais felizes que aqueles casais da novela. Me dá um copo d’água, encerrou a conversa, à contragosto.

Os anos se passaram, a família ganhou novos integrantes, um por ano, assim como a flor que ele tinha trazido pra ela da mata, florescia a cada menino novo. Era uma lindeza só. Mas a solidão e o desejo da televisão continuavam a existir. Ele a construir cercas, ela a reclamar, cada vez mais com aquela cambada de meninos, da solidão. Nunca tinha ido à cidade. Não fazia idéia de como era. O pai nunca deixara por medo de não querer voltar mais. Tinha uma construtora trabalhando na pavimentação da rodovia. Tinha muito homem. Muito homem querendo mulher. Com dinheiro. E era tudo isso que as mulheres queriam: homem e dinheiro. Uma chance de sair da roça, do assentamento, da poeira, da pobreza.

Uma criança ficou doente. Depois outra e depois mais uma. Daquelas doenças que não dá pra esperar passar tomando chá de casca de ipê-roxo ou copaíba e descansando. Precisavam ir à rua. Precisavam de um médico. Ele precisava construir cercas. Ela acabou levando as três crianças enfermas e o filho mais velho pra ajudar. Chegando à cidade, as crianças tiveram de ser internadas. Era grave, mas a mãe estava tranqüila: no quarto do hospital tinha uma televisão. Ela ficou maravilhada, assistia com atenção cada palavra e cada som enquanto a criança chorava desesperadamente com dor, ela só conseguia ver as propagandas de viagem pelo mundo, as mulheres bonitas, bem vestidas, passeando em Ipanema. Foram três semanas de muito entretenimento, alegrias, tristezas (acompanhou fervorosamente todas as novelas) e muita informação pelo Jornal Nacional.

As crianças receberam alta e estavam bem para poder voltar pra casa. Quem as acompanhou foi o irmão mais velho. Chegando lá, o pai que tinha acabado de construir a última cerca do dia, olhou pro menino como se já soubesse. O menino tirou do bolso um papelzinho escrito com letra de quem acaba de aprender a escrever: “Você pode não querer uma televisão em casa, mas não pode me impedir de sonhar.”