segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Das bobagens sinceras

Também me vejo com os mesmos olhos que vejo os outros ao falarem insanidades e coisas estúpidas. Estúpido é forte demais, bobas melhor dizendo. Insanidades sinceras, reconheço. Por que elas vem de forma natural, do coração, sem nenhum outro motivo além do de quererem ser valorizadas. É aquela falta de jeito que se tem para fazer entender esses pensamentos que borbulham, dão voltas e saltos acrobáticos, giram, desviam as portas do bom senso e da sensatez dentro de nossas mentes. Essa tentativa de fazer parte, de interagir, de parecer inteligente, mesmo que muitas vezes não seja tão verdadeiro, que as fazem insanidades dignas de respeito.

O resultado se reflete naquela gargalhada fora de hora ou mesmo pela demora para cessar a mesma, cuja hora já passou faz tempo. Se reflete no rubor das têmporas e no miúdo dos olhos que não encontram direção confortável para assumir o desconforto que é proferir coisas sem sentido - aparente - e persistir tentando consertar o que não há conserto. Assim como as mãos que procuram buracos, adjacências, dobras de pernas, frestas, etiquetas, unhas, cutículas e caminhos para se esconder. Parece que quando escondemos a mão, a vergonha passa e nos sentimos mais confortáveis. Vai entender.

Sempre que sai no meio de uma conversa sobre política ou 'atualidades':" É verdade que a ponte aérea Rio- São paulo é uma ponte mesmo?" ou "Vocês conhecem aquela raça de cachorro que tem a língua azul? Pois é, meu avô tinha um", ou até mesmo informações detalhadas sobre a vida e obra da iguana chamada Iana, eu, apesar do desconforto, sinto um certo carinho e comoção pelo silêncio manifestado pelas bocas ouvintes e pelos prováveis pensamentos desrespeitosos concernentes ao autor das pérolas bobas, mas sinceras. Por que em muitas vezes estive do outro lado e pra falar a verdade, tenho estado de vez em quando. Só que a diferença, que não sei se é compartilhada com outros insanobobos, é que percebo quando a merda é grande, a estupidez é colossal e totalmente inaquada para a situação, que começo a enumerar xingamentos e humilhações para mim mesma, ensaio fugas históricas por baldrames de banheiros, frestas de portas, buracos de tijolos, quer dizer, isso quando eu era magra. Hoje em dia as fugas são mais modernas como a abertura do telhado ao encontro do céu e eu agarrada a um cabo de aço sendo suspendida por um helicóptero, jogar um pó no chão que me faça desaparecer sem deixar rastros ou mesmo voltar no tempo, apagar a memória recente do ouvintes e os fazer esquecer do constrangimento causado.

Cada um tem sua técnica e depois de fugir com um helicóptero ou pela janelinha do banheiro, a tensão passa e temos a chance de tentar falar algo ou permanecer calados sem que haja a necessidade de gastar neurônios imaginando fugas, que vamos combinar, cansam só de pensar e ando tão sedentária, sabe?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

acordei sentindo-me arvorosa.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Não acredite em mim. Eu deixei de me acreditar faz tempo.

sábado, 16 de outubro de 2010

Avia

Ela me via de longe com olhos de desprezo, reprovação, pena talvez. Me via aos prantos nos barrancos das calçadas destruidas por carros bêbados. Calçadas batidas, palco da última apresentação daquele teatro da vida. Ela me via. Ela me via, me observava e imagino eu, que sorria. Há um certo prazer nos olhos dos que vêem pavor e sofrimento n'outro ser, mesmo que esses olhos já tenham passado por cousas piores, ou mesmo, estivessem no lugar do mirante. Piedade custa caro pra quem já teve que pagar muito. Era noite, ou dia, não se sabia. O céu estava cinza como aqueles que a gente olha e não sabe se o claro é do sol ou da lua. Ela,a lua, preferiu se esconder diante de tamanha comoção com a moça que se esfalecia pelo chão. O céu chorava junto, tristemente, lágrima por lágrima, gota por gota. Não no mesmo ritmo, mas na mesma harmonia: Dó maior. Era a última noite. O último choro. A última gastrite. O último, não, talvez não, absurdo. Absurdo eram aqueles gatos, que também só olhavam e não diziam nada. - Porra, gato, faz alguma coisa nessa merda. Vai ficar aí só olhando?
Olhavam ela, o gato, e o vizinho curioso por cima dos muros, que há de se dizer, por aqui são baixos. Olhavam e esperavam eu me levantar. Veio uma formiga, depois um sapo passou pulando, tão alegre e satisfeito com a chuva que nem se deu conta do que se passava na sua passagem. Tive um arrepio, como sempre, mas não consegui demonstrar reação. Poderia ter feito alguma coisa, mas não fiz. É um perigo existir hoje em dia, coexistir, ainda mais. Enquanto rasgava as costas escorada na coluna que sustentava a cobertura, contava carneirinhos esperando a dor passar, que nem se faz quando o sono não vem. Contei milhares até que eles começaram a se transformar em outros animais. Alguns não tinham nome mas iam ganhando forma no céu que ficava cada vez mais com tons alaranjados. Não sei por que, mas laranja me lembra verão e aquela noite bem que poderia ser um verão, um início de um ano novo, ou sei lá, apenas um dia qualquer. E pensando bem, hoje em dia foi.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

É deselegante apagar dedicatórias de livros?

domingo, 10 de outubro de 2010

Diálogos

- Eu tenho um carro importado - um não, dois - uma mansão em bairro nobre, um flat na praia, um cartão de crédito sem limites, um jet ski, um zoológico particular, um campo de futebol, ações na petrobrás, uma loja em paris...

- Eu tenho um frigorífico de aves.

- Já eu tenho uma árvore, um caderninho de anotações e um saco de pipoca doce.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sinta, mas sinta mesmo, a energia da indiferença vinda dos meus ovários.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Menos ficção.
Mais vida.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

a textura das minhas mãos tem acompanhado meu estado de espírito.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Resuma-se: - Aqui. Pega. Tuas coisas.

domingo, 26 de setembro de 2010

Do lado do soutien que cabia mais peito, cabiam também sentimentos que muitas vezes precisariam ser guardados nos olhos, para que não tivessem de ser materializados. As pessoas roubam aquilo que não tem título de propriedade. Vejam só os índios! O uso capião virou velhaco, mas ainda cheio de dentes. O meu? rosna de vez em quando.

quantos dos meus cabelos crescem em um mês?
me perguntei ao perceber que me sinto brega, mas às vezes, relevo.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

tão poético quanto você roendo suas unhas dos pés.

o que fazer com a saudade trazida na mochila?

Sobre vassouras e cavalos

Sinto saudades dos meu ossos, da minha solidez e do meu humor de verão. Aqueles que a gente amanhecia, eu, tu e os sóis ventilados, bem cedo pra poder sair e caminhar sob as areias quentes, também de verão. É aquela felicidade que a gente não sabe como se foi, pode ter ido com o mar, com o vento, com o rio ou com o sorriso que ficou calado esperando alguém terminar de falar pra dar o último suspiro ou dizer simplesmente: é. E é como se fosse mesmo, mas sem vontade de voltar. Sei lá o por que dessas coisas que essas linhas imaginárias acabam guiando nossas vidas. Só sei que acredito nelas, independente de quais nomes possam elas ter.

Estive em vários lugares ao mesmo tempo, em um deles chegou um menino, nos altos de seus 10 anos, de cabeça baixa, e ao olhar pra cima, pra mim, sentada tomando uma água mineral com gosto de sal, percebi que ele tinha vasourinhas nos olhos. Cada palavra era uma vassourada naqueles olhos redondos, como todos são, mas eram profundos e queriam me dizer muitas coisas. Muitas delas eu consegui entender, muitas outras não. Olhar de criança é matador. Fiquei lembrando das vassourinhas por dias, semanas, meses. Ele dizia algo sobre uns cavalos que tinham fugido da fazenda onde seu pai trabalhava. Que eram lindos e muito especiais. Um deles era preto e usava luvas brancas. Perguntei: Usam luvas brancas? Ele respondeu que sim, como se não fosse nenhum absurdo um cavalo usar luvas. Ele brincava com uma folinha seca desenhando caminhos pelo chão. Se dizia triste por ter que ir atrás dos cavalos: Eles correm muito, estou cansado de correr. Eu disse, fica aqui um pouco, puxei assunto sobre a sua familia, mas ele só falava dos cavalos. Disse também que se fosse um cavalo, valeria muito mais que um. -Acho que eu valeria um milhão de reais. Perguntei o por que de ser tão valioso, e ele respondeu: - Eu corro bastante, não nego corrida não, sou leal aos meus pais e amigos, raramente fico nervoso e, olha só o que eu tenho - levantou a blusa de manga comprida e me mostrou as mãos - tenho luvas brancas. Meus olhos se enxeram de lágrimas. Aquilo tinha sido uma das coisas mais bonitas que eu já tinha ouvido. Ele tinha problema de pele, esta estava sempre coberta. De repente ele levanta em um pinote e sai correndo e quando percebi vi um cavalo marrom, brilhante, forte com as patas brancas, também correndo pelo pasto.

-Pareciam luvas mesmo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

se o medo da culpa passou, nada mais impede essa consciência imunda.

tenho mentido pouco.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

dentre árvores e rostos,
os nomes sei de poucos.

cometi pecados crocantes

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Menina, macaco e cara de sirigüela

Ela não tinha nada além de uns trapinhos. Um punhado de calcinhas, um vestido rosa, outro florido e um macacão jeans. No ombro esquerdo carregava um macaco, daqueles salientes, que roubara da floresta que existiu ali há tempos. Já tinha perdido dois soldados que cuidavam do portão de entrada e ela parecia não se importar por ter ouvido dizer que era só tomar um copo de leite todo os dias que eles iam voltando, crescendo devagar, dia após dia.


Hoje, tomou um gole de suco de sirigüela e fez a mesma cara da fruta. Engoliu junto com o choro que vinha regar as vassourinhas que cobriam seus olhos, marejados do rio à frente, marrons como a casca do coquinho que descascava e deixava seus dedos alaranjados. Era simples como um sorriso observar aqueles peixes sendo sequestrados de seus lares. Era comum. Não se fazem corações como antes, ela dizia com um certo tom de soberba, ou nobreza imaginária, de pensar que no alto de seus cabelos negros, cortados à cuia, alguma vã filosofia distante poderia guiar seus passos descalços pelo chão barrento, chão sem grama, sem folha sem flor.


Veio uma formiga e picou seu dedinho deformado pelas formas que as quinas dos móveis, árvores e esquinas os dão. Quase não sabia de palavrões, mas saiu um abestada, tão natural quanto qualquer outra coisa natural. Não gostava de fazer comparações. Eu, de vez em quando. Pra medir o grau de proficiência da coisa. Mesmo que eu nem saiba o que isso significa, de vez em quando, faz-se o uso do dicionário e alimenta-se o próprio. Muito mais confiável, por que realmente descreve o sentimento de cada palavra. Em breve, nas livrarias mais próximas da saída de emergência.