quinta-feira, 10 de junho de 2010

O problema de ter um ídolo é você querer ser que nem ele. E nem sempre escolhemos bons ídolos para ser. Nunca fale em voz alta sobre.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Da aleatoriedade e do destino se faz uma grande e insignificante tragédia pessoal

Antes tarde do que nunca se aplicaria, mas resolvemos escolher quem cedo madruga, deus ajuda. Era cedo, o sol nem tinha acordado ainda e as nuvens faziam festa sobre nossas cabeças. A cidade estava de ressaca, do mega show de um cantor baiano qualquer, cuja voz não saia da minha cabeça, por um motivo simples: passou a noite toda cantando no meu ouvido enquanto eu tentava dormir. Seria uma péssima idéia escolher um hotel em frente à uma casa de shows, mas o hotel era o melhor da cidade. No pain, no gain.


Logo na saída, aquele veículo automotor que nos conduziria ao nosso tão desejado lar, doce, limpo, lar, deu sinal de que não estava muito bem aquela manhã. Tossiu, reclamou, rangeu engrenagens, faltou bater o pé no chão e dizer: Não vou. O motorista, trocou 6 por 1/2. E nós tivemos que trocar de carro. Cada um com suas coisas nas costas, nas mãos e nos braços, procurou se acomodar da melhor maneira possível, mesmo que isso não seja algo tão literal.


A poltrona era de couro. Daqueles que ninguém nunca, nunca, mas nunca limpa na vida. Foi cinza na juventude, hoje tinha cor de café com leite. Mais café que leite. Tentei tirar da minha cabeça a idéia de cabeças, braços e pernas suadas e seus vestígios enquanto eu sentava ali, sem a oportunidade de reclamar, pois para quem tem pouco dinheiro e falha na hora de fazer orçamentos, eu não tinha alternativa mais barata que essa. Barato, que saiu caro, diga-se de passagem interestadual. Procurei também não reparar que o lugar de se colocar bagagem de mão, acima de nossas cabeças estava sendo equilibrado por algumas barras de ferro, pensas, tortas, desajustadas e havia um rombo, isso mesmo, um rombo no teto que dava pra ver o céu. E não não me refiro à janela de ventilação.

Havia uma criança a escorrer catarros, uma senhora de saia florida, um rapaz com uma calça jeans justa e um cinto com fivela de cavalo, um homem sujo de graxa, com cara de mecânico, uma moça que fingia ler uma apostila xerocada, outra criança pra lá e pra cá no minúsculo espaço entre as cadeiras, uma mulher com peitos a saltar da blusa, havia um nariz, um bigode, e por tras dele, um homem. Todos tinham os sovacos suados.

Eram máquinas, tratores, homens sujos, suados e homens dentro de cabines com ar -condicionado. Todos a atrapalhar o trânsito de pessoas que esperavam ansiosamente o fim de uma obra de dez anos que iria transformar 220 km de barro (e todos os estados físicos da matéria), buracos, ondulações, crateras e aventuras em 2 horas de viagem linear, quase inaudível, talvez agradável. Já esteve mais longe, diziam. É, concordei, já esteve.

Alguns quilômetros depois de constatações saudosas, revoltadas, percepções alheias ao clima, o formato da copa das árvores que insistiam em existir no vasto campo dominado por eles, os donos do pedaço, bois, nada sagrados e por muitos odiados ou desejados, algumas unhas e cutículas pestiscadas, algumas, na verdade três tosses profundas, um pastel de carne, alguns goles de água- poucos por que do jeito que as coisas iam, eu morreria com a bexiga na cara, mas não chegaríamos à um banheiro antes de uma tragédia molhada- alguns choros sem graça, como todos os choros infantis costumam ser, algumas conversas inocentemente ouvidas sobre como o trabalho anda difícil, as coisas caras, confissões de mulheres infiéis que não suportavam ter que engolir suas mentiras e nem de seus companheiros, que ainda mesmo, ao voltar para casa depois de um dia todo de trabalho, não importando qual tipo de trabalho tenha sido, os recebiam, eles os companheiros homens, com aquele sorriso, muitos sem dentes, mas com cáries, ah sim, cáries, e tinham um prato de arroz com farinha e um pingado de peixe. E um pouco de amor, claro, por que é isso que as mulheres fazem: perdoam. O ônibus dá uma parada brusca. O sol, à pinotes no céu, bombando raios solares e vento que é bom, nada. O motorista, desce, demora um pouco, sobe e diz: "É, agora lascou-se". A felicidade se espalhou junto com uma carrada de poeira levantada por um taxista que passou exatamente nessa mesma hora " lascou-se".

- A barra de direção. É, quebrou. Vou tentar remendar.

Até onde eu entendo de mecânica, uma barra de direção quebrada é quase como um ataque cardíaco, é mortal. Mas eu devo estar enganada, pois após esse leve pensamento, vejo o motorista subindo com uma barra de ferro, de mais ou menos uns 2,5 m, colocando ela no meio do corredor do ônibus e dando partida. Tudo ia bem na minha viagem e na do elefante indiano que passava sobre meus olhos até que, até que, até que, até que, o ônibus quebra denovo. O mesmo ritual, o motorista desce, com cara de putaquepariu, endireita a roda no eixo do chassi, volta marrom e rosa. Marrom por causa da poeira e rosa porque tinha cara de português, daqueles que suam e ficam rosa. Quase um leitão. O ritual se repetiria mais umas 5 vezes, mas o que tornou a quarta vez mais interessante foi o fato de ter quebrado em frente a uma área que tinha árvores, mangueiras, dois pés de mamão com frutos maduros. Não preciso comentar que comeu-se mamão sob a sombra de mangueiras.

Desde a quarta quebrada, o céu ameaçava chover. Claro, não faltava nada além de chuva e a falta de combustível. A falta de combustível eu não sei, pois depois da ameaça cumprida, na quinta quebrada, o ônibus atola em uma vala no canto da estrada. O buraco foi fundo e havia barro e grama na janela. Claro que as crianças começaram a chorar, os velhos a coçar os sacos, as velhas a sacudir saias e eu tomei uma atitude, claro também. Retomei meu contorcionismo há muitos anos não praticado, sai pela porta, em cima de um barranco e pulei pro meio da rua. Ia passando um carro, que oferece ajuda ao motorista rosa. O carro tinha duas pessoas e um banco lindo, estúpidamente vazio e espaçoso atrás. Acendeu uma lâmpada na minha cabeça, vesti minha melhor cara de pau e propus:

- Os senhores poderiam me dar uma carona?

Era uma dupla de irmãos. Não meus, quer dizer, vai saber, mas irmãos em cristo. Pastores, missionários, alguma coisa da igreja maranata que estavam voltando de mais uma missão cumprida, alguns dízimos e algumas pessoas salvas para o reino do senhor, deus pai, todo poderoso, criador do céu, da terra e dos homens. Ao sentar vi que havia um rádio no painel. Tremi dos pés à cabeça imaginando que teria que passar horas ouvindo hinos agudíiiiissssimos de adoração. Mas não, graças à ele. Parada para o pastel e um deles me pergunta aonde eu moro. Eu disse e ele disse que havia uma igreja deles perto da minha casa. Eu pensei: interesseiro. Tomei um gole de coca-cola, dei meu meio sorriso, emiti um som que significa, as vezes, que não tenho mais nada pra dizer a não ser: hum.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

há dores que a gente esconde na garganta ou no estômago, que é pra que ninguém consiga vê-las.

domingo, 23 de maio de 2010

eu, eles , ruivos

eu, eles, ruivos ao ver a castanheiras mortas de pé, zumbis testemunhas centenárias, sequer, de um futuro passando de costas pros outros muitos que viriam
eu, eles, impacientes, com monstros metálicos rasgando tudo aquilo abaixo do chão, revirando, revolvendo, remoendo vida em pó, vermelha
eu e eles ruivos, sólidos, a chacoalhar ossos, peles e estômagos cheios de água, mirando aquele horizonte tortuoso sem ao menos ver a miragem do suposto fim, água parecer
eu, eles, urubus e bois, esperando a próxima chuva ou o próximo caminhão chegar, eu e eles, ruivos de poeira do chão, do pó da terra, esperando pela camada de progresso, negra, sob rodas, chegar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Esse cheiro de puberdade não me comove mais. Desculpa.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Dos discos que não ouço, por que são de mentira, acho coxas foscas e engulo imigrantes com farinha. Que coisa boa é ser lembrada que o bom da tempestade, meus que me são caros, é a bonança. E a bonança ainda é uma só uma criança...

sábado, 1 de maio de 2010

Responsabilidade é tudo aquilo que se toma pra si. Senão, não passa de obrigação.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

que mistério que há

que mistério tem calvíce, que em cima nada existe, como insiste refletir raios ultra hiper mega violetas, de volta por céu

que mistério faz chover, jogando chuva nas nuvens e depois reclama do que manda de volta, o céu.

que mistério tem alice, com seus olhos borrados e tristes, como um conto escrito em papel sujo de outros sujos, como um canto escuro cheio de outras tristes a borrar olhos e calças.

que mistério tem a mesmice que se repete, se ri e se sente, como se a primeira vez fosse, como se fosse qualquer coisa, menos nada, primavera.

que mistério, insiste, há nesse que tudo ou nada se vê, viver entre folhas e luzes, escondendo o que realmente não se necessita, e a vida, lá fora, que há, onde está?

o mistério que existe, apagou-se nos mistérios da esquisitisse, que só quem tem paciência, insiste, ouve e lê sem bocejar.

e deixo escrito que não tenho.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Não, não sei se foice ou lâmina. Mas deveria ter ido há tempos.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

e março
já marcha

domingo, 11 de abril de 2010

da venta e do verde azul

e há que diga que nada mais há no azul imenso do céu, apenas ele. Grande, vasto, vezes multicolor, astros. Penso muitas coisas, entre muitas delas, coisas boas e proveitosas. Penso que nesse céu que abraça o chão, cabe muito mais que pequenos imensos astros vistos à olho nú, sequer almas perdidas, borboletas e algodões doces. A vida e o céu dão as mãos no entardecer pra cobrir os olhos de quem vê com a alma e os olhos da cara, o sol, aquele monstro que anda castigando quem fez, ou não, por merecer. Fato é que a terra, o céu e nem o diabo no sol são justos, por isso tanta revolta e perplexidade perante os acontecimentos fatídicos que assolam quem merece, e quem não.

Triste é ver essa coisa enorme sob nossas cabeças e sentir o quão mal tem se feito. Não tardar muito e o azul com carneirinhos tornar-se-á cinza e escuridão, por fim. E momentos como esses que poderiam ser perfeitamente compartilhados num vento seco, resultado de um pseudo frio, vir desarrumar a franja, cobrindo os olhos a olhar aquela linha, horizontal, dependendo de que ângulo se vê, se dissolver em segundos laranjados. Poder-se-ia compartilhar, se assim pudesse. Estar viva é muito mais gratificante do que um par de camas sem pés a ranger. Por que a ausência e a certeza de que a mesma é pra sempre, por vezes conforta, por outras é grata por que na vida, nada é por acaso e acima daquela imensidão azul e seus carneiros, há quem saiba demais.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Vermelho, amor.

Desejo todos os tons de vermelhos
um para cada boca,
um pra cada dia,
um pra cada louca,
um para cada par de olhos

Os vermelhos me são vastos
e me deixam rastros por onde passam
Meus vermelhos são fortes, vezes fracos
Mas gosto não têm

Meus vermelhos propósitos
indiscretos e incômodos
Me colocam um pouco
da cara cor na face

O espelho diz:
tu sabes o vermelho amor que tens.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

C

Pro silêncio que corrói unhas, estômagos, membros e braços
naquele silêncio que ecoa do nada pro nada e pra nada
solto sem dor nenhuma, um dó maior
e um mantra diário que me faz melhor, cada dia mais.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Das mudas

Roendo fracionadamanete unhas,
olhando detalhadamente céus
contando meticulosamente gotas
rezando pra calçada mudar de lugar
toda vez que os ângulos das suas pernas
já tortas de futebol,
formarem cruzes apontando pro céu

Quantos carros coloridos
E minha face sem cor
Quantos postes, quantas costas definidas, divididas
Cara e espelho, sem tirar nem por

Me falta um batom , querida
Quantos postes, quantas costas
Poder de ir e vir
Quantas noites, quantas mortes
Ai que vontade de rir

É sem tirar nem por, menino
Sem tirar de cor
Sem mudar de cor, menino
Sem mudar de cor

Não se muda só mudando de endereço
Não se muda se morrendo o dia inteiro
Não se muda gritando, não se muda fugindo
Não se muda matando
Não se fala, não se muda.

sábado, 3 de abril de 2010

me dá um pedaço do teu bolo.

domingo, 28 de março de 2010

Ele parecia estar nos anos oitenta, com ar de vanguarda, enquanto pessoas com síndrome de down e síndrome de importância discutem política, cultura e opniões como se lhes fossem propriedade, sem sair do conforto de suas cadeiras acolchoadas. Onde o maior movimento que se faz para mudar seus descontentamentos pessoais, é o dos pulsos a movimentar os dedos ou mouses da moda. Engraçado é assistir essa novela onde os coadjuvantes ganham prêmios de gratificação pelos correios, como se fossem cachorros, por mais que sua importância não passe de momentos escuros em cima de uma cama, cheia de conjuntos de outros, ou dentro do ambiente de trabalho nos horários extra-conjugais.

Sim, síndrome de down não tem cura e nem se pode escolher seus genes, mas coliegas: maquiagem forte usa quem pode.

segunda-feira, 22 de março de 2010

ela também tinha bunda de passarinho.

Do que passou e do que ainda fica.

É de lá, o vento que tem cheiro de sal, areia e bloqueador solar. Lá, onde a poeira é fina e dá até pra varrer sem perder de vista. Seria uma varrição infinita, pois tão infinita quanto ela, só mesmo aquela no fundo daquele também, mar. Lembro de vir andando, com o sol ardendo e queimando os cabelos escuros, tornando-os avermelhados. Lembro também que quando era criança queria ser ruiva. Apelei para opções artificiais, já que escolher um pai ruivo, ou mãe com alelos recessivos e nascer denovo ainda não era possível. Foi bom enquanto durou. O cabelo foi de outras mil cores. Não mil, mas umas cinco foi. O problema é que pra família, a imagem de si que fica, é sempre aquela que você faz questão de esquecer. Nem sempre.

A fachada tinha mudado de cor, depois de tanto tempo sem voltar lá, errei o endereço. Olhei pro canto do muro e lembrei das roseiras que furavam o dedo quando criança. Viraram concreto. - É mais fácil de lavar. E eu balançava a cabeça concordando pra não ter que discutir a imporância de se ter solo, grama, terra na sua casa. Ia demorar demais e além de estar com preguiça e com sede, ia dar muito trabalho.

O corredor sempre foi escuro. A mesa da sala de estar de madeira boa. Não precisa ser um bom conhecedor de madeiras pra saber quando uma é. Um quarto à direita tinha se transformado em dois, onde uma prima, até então desconhecida, assistia um desenho animado na tv, comendo tangerina. A vó gritou: - Menina, não vai me melar a blusa, oxente! Ela me olhou, melada até a testa e sorriu. Sorri também. Não me custava nada.

Em frente a mesa da sala, um parapeito com casamentos, batizados, aniversários de criança, velhos em sua juventude, irmãos, parentes, o cachorro, já então falecido, um paninho de renda verde e um monte de gente pra mim desconhecida. Pensando bem, já era tarde de mais para conhecer algumas delas.

Sigo em frente, lembrando que quando era menor, ele costumava colecionar telesenas na gaveta de madeira que tinha cheiro de fungo. Tinha também uma máquina de escrever e umas revistas de mulheres bonitas, bem bonitas. Era o que eu sabia naquela época. Hoje em dia o lugar virou uma outra sala, com um sofá também mofado, as mulheres já estão idosas ou mais que isso. E as telessenas, foram recaptalizadas.


Na parede e na porta, retratos saudosos. E alguns fungos também. Era bem úmido e choroso aquele lugar. Olhei pra mim, há anos. Sem alguns dentes, mas os olhos eram os mesmos: duas jaboticabas em forma de gota inclinada. Os cabelos lembrando meus ancestrais absurdamente desconhecidos. Senti um cheiro de picolé de côco que ela fazia e das fivelas de cabelo que ela me dava. Eram feias, eu nunca usaria, mas sempre guardei como forma de respeito. Apesar de nunca tê-la por perto, e eu nem queria, fiquei triste e de coração mole.

Outro quarto escuro, parecendo uma cela. O cheiro também não era agradável. Ser velho e dependente é degradante. Estava ela, sob ossos e peles, deitada numa cama de madeira também. Ele, em vida, era marceneiro, carpinteiro e sabia fazer as coisas.

- Como você está gordinha. É..saudável,né?. Alguns minutos de interrogatórios repetidos, me despedi como se fosse a última vez. - Fica com deus. - Mande lembranças à sua irmã. - Tá, eu dou, eu dou. - Vá à praia, faz muito tempo que eu não vou lá. Vi umas lágrimas escapando entre a brecha que abriu entre os olhos e a pele de bochecha, mas era comum, era muito emotiva.

Fui ao sofá, enfiei a mão na lateral pra ver se achava algo que tinha escondido há décadas. Não achei, óbvio, mas tive aquela sensação de alívio e uma vontade louca de tomar banho no mar.


quarta-feira, 17 de março de 2010

Eu não tenho pena. Não gosto de competir com quem tem mais do que eu.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ela parece um cupuaçú peludo, só que é fedida. Mas cupuaçú não toma banho. A conclusão mais imbecil de todos os tempos: Minha cadela é um cupuaçú!